
AMAZÔNIA PLAY TV — MANAUS — Um incêndio de grandes proporções atingiu, nesta quinta-feira, 3 de setembro, um dos prédios mais importantes da arquitetura moderna de Manaus. O antigo edifício do Banco da Amazônia (Basa), na Avenida 7 de Setembro, no Centro Histórico da capital, foi tomado pelas chamas no fim da manhã.
Mas o fogo não atingiu apenas um prédio desativado.
A construção é uma obra do arquiteto Severiano Mário Porto, um dos principais nomes da história da arquitetura produzida na Amazônia e responsável por projetos que ajudaram a construir a identidade arquitetônica moderna de Manaus.
As chamas se espalharam rapidamente pelo imóvel, produzindo uma grande coluna de fumaça e mobilizando equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas.
Parte da frente da construção foi severamente atingida e uma parcela da cobertura chegou a desabar durante o incêndio.
A área foi isolada e o trânsito na Avenida 7 de Setembro sofreu alterações durante o trabalho das equipes de emergência.
Até as informações divulgadas no início da tarde, não havia confirmação oficial de vítimas.
A origem do fogo ainda não foi oficialmente determinada.
Informações preliminares levantaram a hipótese de que o incêndio possa ter relação com pessoas em situação de rua que frequentavam o prédio abandonado.
Essa informação, entretanto, ainda precisa ser confirmada pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Somente uma perícia poderá estabelecer oficialmente onde o incêndio começou e quais foram suas causas.
Para compreender a dimensão da perda provocada pelo incêndio, é necessário conhecer a história do prédio.
Projetado por Severiano Mário Porto, o edifício foi inaugurado em 9 de março de 1979 para abrigar o Banco da Amazônia.
A construção tornou-se uma referência da arquitetura moderna adaptada às características da região amazônica.
Concreto armado, grandes superfícies de vidro e madeira regional foram combinados em uma solução arquitetônica que buscava integrar modernidade, identidade amazônica e adaptação ao clima de Manaus.
A fachada possuía elementos treliçados que ajudavam a controlar a incidência direta do sol.
Grandes troncos de madeira também foram incorporados às entradas do edifício, reforçando a relação entre a arquitetura e a floresta.
O resultado foi uma construção tão característica que passou a ser conhecida entre estudiosos como o “Palácio de Cristal da Amazônia”.
O incêndio também chama novamente a atenção para o legado de Severiano Mário Porto.
Conhecido como “Arquiteto da Amazônia” e também como “Arquiteto da Floresta”, Severiano nasceu em Minas Gerais, mas construiu em Manaus uma parte fundamental de sua trajetória profissional.
Seu trabalho buscava desenvolver uma arquitetura capaz de dialogar com o clima, a floresta, os materiais e as necessidades da Amazônia.
Entre os projetos importantes relacionados ao arquiteto estão o campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o Fórum Henoch Reis e o antigo Estádio Vivaldo Lima.
O antigo Basa integra justamente esse conjunto de construções que transformou Severiano Porto em uma referência da arquitetura brasileira.
O Banco da Amazônia deixou o edifício do Centro após transferir suas atividades para outra região da cidade.
Desde então, o imóvel passou anos sem utilização permanente.
Em novembro de 2023, uma iniciativa trouxe esperança de recuperação do patrimônio.
A Prefeitura de Manaus e o Banco da Amazônia anunciaram um acordo de comodato pelo qual o prédio seria cedido ao município por 15 anos, com possibilidade de aquisição posteriormente.
O projeto previa a restauração das características arquitetônicas originais e a transformação do imóvel em um espaço dedicado à cultura.
O local deveria receber a sede da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos, Manauscult e também funcionar como centro cultural.
Havia inclusive a intenção de batizar o espaço como Centro Cultural Severiano Mário Porto, homenageando justamente o arquiteto responsável pelo projeto.
A revitalização, entretanto, ainda não havia sido concretizada quando o incêndio aconteceu.
O incêndio desta quinta-feira ultrapassa, portanto, os limites de uma ocorrência cotidiana.
Ele reacende uma discussão antiga em Manaus:
como a cidade está cuidando de seu patrimônio arquitetônico?
O Centro Histórico reúne construções que ajudam a contar diferentes períodos da história econômica, política, social e cultural da capital amazonense.
Quando um prédio dessa importância permanece abandonado, sua deterioração não representa apenas a perda de uma estrutura física.
Representa também o risco de desaparecimento de parte da memória da cidade.
No caso do antigo Basa, a situação ganha ainda mais relevância porque o imóvel está associado à obra de um arquiteto cuja produção possui reconhecimento histórico e arquitetônico.
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