
CARACAS — A Venezuela atravessa, neste início de setembro de 2026, um dos períodos mais delicados e decisivos de sua história recente. Após anos de crise política, econômica e institucional, o país vive agora uma complexa transição sob o governo interino de Delcy Rodríguez, ao mesmo tempo em que tenta recuperar sua principal indústria, controlar uma inflação extremamente elevada e reconstruir regiões devastadas pelos fortes terremotos registrados em junho.
O cenário político venezuelano mudou profundamente depois da captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026. Maduro foi levado aos Estados Unidos e responde a acusações criminais na Justiça norte-americana. Ele se declarou inocente e sua defesa tenta derrubar o processo alegando, entre outros argumentos, imunidade como chefe de Estado.
Nesta terça-feira, 1º de setembro, o caso voltou ao centro das atenções. A defesa de Maduro prepara uma ofensiva jurídica sustentando que sua captura e transferência para território norte-americano violaram princípios do direito internacional.
Especialistas consultados pela Reuters, entretanto, avaliam que o ex-presidente enfrenta obstáculos consideráveis para conseguir o reconhecimento da imunidade, principalmente porque os Estados Unidos não o reconheciam como presidente legítimo da Venezuela desde 2019.
Com Maduro fora do poder, Delcy Rodríguez assumiu interinamente a Presidência, mas a mudança no comando não significou o desaparecimento imediato das estruturas políticas construídas durante décadas pelo chavismo.
Parte importante do antigo sistema político e administrativo permanece presente nas instituições venezuelanas.
Ao mesmo tempo, o governo interino iniciou uma aproximação significativa com Washington e abriu negociações com setores da oposição.
No início de agosto, representantes do governo e de uma ala da oposição começaram formalmente conversações apoiadas pelos Estados Unidos. O objetivo declarado é discutir mudanças no sistema político venezuelano e estabelecer um caminho para futuras eleições.
A oposição participante das negociações é liderada por Dinorah Figuera, enquanto Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy Rodríguez, representa o governo. María Corina Machado, uma das principais lideranças oposicionistas venezuelanas, não participa diretamente dessa mesa de negociação.
Um dos primeiros sinais concretos desse processo ocorreu em agosto, quando o governo anunciou a libertação de 131 pessoas que estavam detidas, apresentadas por organizações de direitos humanos e setores oposicionistas como presos políticos.
Apesar disso, a transição permanece cercada de incertezas.
A grande pergunta é até onde o atual governo estará disposto a avançar na abertura política e quando a Venezuela terá condições institucionais para realizar uma eleição amplamente reconhecida dentro e fora do país.
Se a política está em transformação, é novamente o petróleo que aparece como principal esperança para recuperar a economia.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, mas anos de falta de investimentos, problemas administrativos, deterioração da infraestrutura e sanções internacionais reduziram drasticamente a capacidade de produção do país.
Essa situação começa a mudar.
Em julho, as exportações venezuelanas ficaram em aproximadamente 1,16 milhão de barris por dia. O dado mais significativo foi o crescimento das exportações destinadas aos Estados Unidos.
Segundo dados obtidos pela Reuters, cerca de 786 mil barris por dia foram enviados ao mercado norte-americano em julho, maior volume desde o início de 2019.
A aproximação econômica ganhou uma dimensão ainda maior nos últimos dias.
O governo de Delcy Rodríguez anunciou um amplo acordo energético entre Venezuela e Estados Unidos.
Segundo a presidente interina, o entendimento terá duração prevista de 25 anos e pretende desenvolver 17 campos petrolíferos estratégicos, com uma meta inicial de produção superior a 1,5 milhão de barris de petróleo por dia.
Também está previsto futuramente o desenvolvimento de oito novos blocos petrolíferos.
Rodríguez afirma que o acordo preserva a soberania venezuelana sobre seus recursos naturais e poderá gerar receitas fundamentais para a recuperação do país.
O governo dos Estados Unidos, por sua vez, considera o petróleo venezuelano importante para sua estratégia de segurança energética.
A estrutura do acordo, entretanto, já provoca questionamentos jurídicos e políticos. Especialistas apontam dúvidas relacionadas à aprovação legislativa, à participação norte-americana e à maneira como empresas privadas serão escolhidas para participar dos projetos.
Também existe um problema prático: recuperar plenamente a indústria venezuelana exigirá investimentos bilionários em poços, refinarias, oleodutos, instalações portuárias e outras estruturas que ficaram anos sem investimentos suficientes.
No dia 27 de agosto, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos publicou novas licenças relacionadas às operações venezuelanas, incluindo petróleo, gás, derivados petroquímicos, minerais e atividades envolvendo a estatal PDVSA, demonstrando a velocidade da mudança na relação econômica entre Washington e Caracas.
Para a população, entretanto, os grandes acordos petrolíferos ainda estão distantes da realidade encontrada diariamente nos mercados e nas ruas.
A inflação permanece como um dos principais problemas do país.
O Banco Central da Venezuela informou que a inflação mensal chegou a 19,9% em julho, contra 13,8% em junho.
Cálculos da Reuters baseados nos números divulgados pelo próprio Banco Central apontaram inflação acumulada em 12 meses próxima de 580%.
Na prática, isso significa perda constante do poder de compra.
A dolarização informal da economia, que se intensificou nos últimos anos, continua sendo uma forma encontrada por comerciantes e consumidores para tentar escapar da desvalorização do bolívar.
O desafio para Delcy Rodríguez será transformar o crescimento das exportações petrolíferas em melhoria concreta das condições de vida.
Não basta produzir mais petróleo.
Será necessário estabilizar a moeda, controlar os preços, recuperar serviços públicos, gerar empregos, atrair investimentos e aumentar a renda da população.
Como se a crise política e econômica não fosse suficiente, a Venezuela foi atingida em 24 de junho de 2026 por dois fortes terremotos, que provocaram uma enorme tragédia humanitária.
Uma avaliação preliminar do Banco Mundial estimou em aproximadamente US$ 19,6 bilhões os danos físicos diretos provocados pelos terremotos.
O custo total da reconstrução poderá chegar ao dobro desse valor ou até ultrapassá-lo.
Os abalos atingiram principalmente áreas do norte da Venezuela, incluindo regiões próximas à capital, Caracas, destruindo residências, edifícios e infraestrutura pública.
Milhares de pessoas morreram, milhares ficaram feridas e muitas famílias perderam suas casas.
O desastre também atingiu justamente um país que já enfrentava dificuldades econômicas e limitações nos serviços públicos.
O ACNUR mantém uma operação humanitária relacionada aos terremotos e afirma que as necessidades permanecem elevadas entre famílias que perderam moradias, acesso a serviços básicos e fontes de renda.
Outro enorme desafio permanece sem solução: a diáspora venezuelana.
Dados do ACNUR indicavam aproximadamente 7,9 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos espalhados pelo mundo, principalmente pela América Latina.
Colômbia, Peru, Brasil, Chile, Equador e outros países receberam grandes contingentes de venezuelanos durante os anos de crise.
Apesar de existirem movimentos de retorno, a saída de venezuelanos continua ocorrendo.
Uma eventual recuperação econômica poderá provocar gradualmente o retorno de parte dessa população.
Porém, isso dependerá principalmente de emprego, segurança, estabilidade política e confiança no futuro do país.
O cenário venezuelano, portanto, é contraditório.
De um lado, existem sinais que seriam praticamente inimagináveis há poucos anos: aproximação com os Estados Unidos, retomada acelerada das exportações de petróleo, negociação entre governo e oposição, libertação de detidos e discussão sobre mudanças institucionais.
Do outro, permanecem problemas extremamente graves: inflação elevada, salários deteriorados, infraestrutura deficiente, serviços públicos fragilizados, milhões de cidadãos vivendo no exterior e agora uma gigantesca reconstrução após os terremotos.
A Venezuela possui uma vantagem extraordinária para tentar sair dessa situação: petróleo.
Mas a experiência das últimas décadas demonstra que reservas naturais, sozinhas, não garantem prosperidade.
O futuro venezuelano dependerá da capacidade do país de transformar a riqueza petrolífera em investimentos, empregos e melhoria das condições sociais, além de construir instituições capazes de recuperar a confiança dos venezuelanos e da comunidade internacional.
Os próximos meses deverão ser fundamentais para definir o futuro da Venezuela.
Entre os principais pontos estão a evolução das negociações entre governo e oposição; a definição de um calendário político e eleitoral; novas libertações de presos; a implementação efetiva do acordo petrolífero com os Estados Unidos; o comportamento da inflação; a recuperação da produção da PDVSA; os investimentos estrangeiros e, principalmente, a reconstrução das áreas atingidas pelos terremotos.
Enquanto isso, Nicolás Maduro trava nos tribunais norte-americanos uma batalha completamente diferente daquela que comandou durante anos em Caracas.
E Delcy Rodríguez enfrenta talvez o maior desafio político de sua trajetória: administrar a transição de um país profundamente dividido e transformar a nova fase econômica em resultados que possam efetivamente chegar à população.
A Venezuela de setembro de 2026 já é muito diferente daquela que iniciou o ano. Mas a saída definitiva da crise ainda está longe de estar garantida.
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