
Katmandu, Nepal – A dimensão da tragédia que atingiu o Nepal no fim de agosto continua aumentando. Nesta quarta-feira, 9 de setembro, o governo nepalês informou que 1.367 corpos já foram recuperados e cerca de 5,1 mil pessoas permanecem desaparecidas após as enchentes repentinas que devastaram áreas do norte e do centro do país.
A catástrofe começou em 26 de agosto, quando uma enorme massa de gelo, água e rochas desceu das regiões montanhosas e atingiu o sistema dos rios Bhote Koshi e Trishuli. Análises iniciais apontam para o colapso de uma geleira em grande altitude como provável desencadeador da inundação.
A força das águas arrastou casas, estradas e pontes e atingiu instalações de geração de energia. Distritos como Rasuwa, Nuwakot e Dhading estão entre os mais afetados. A destruição de vias e da infraestrutura de comunicação tornou ainda mais difícil chegar às comunidades isoladas.
O balanço oficial divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Nepal aponta que aproximadamente 5.100 pessoas continuam desaparecidas, incluindo cerca de 600 estrangeiros de 35 países. O número ainda pode sofrer alterações à medida que as autoridades cruzam registros e identificam as vítimas.
A Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres informou um número semelhante: 5.132 desaparecidos. Apenas 102 dos corpos recuperados haviam sido identificados e entregues às famílias até a atualização de quarta-feira.
O trabalho de identificação tornou-se uma das etapas mais difíceis da operação. Especialistas forenses de países como Índia, China, Japão, Singapura e Coreia do Sul estão auxiliando as autoridades nepalesas na coleta e análise de DNA.
Em meio ao cenário de destruição, as equipes de emergência conseguiram retirar 13.646 pessoas das regiões afetadas, incluindo mais de 300 estrangeiros. Mais de 7 mil pessoas receberam atendimento médico, segundo dados divulgados pelas autoridades.
As buscas contam com militares, policiais e equipes de emergência do Nepal, além de especialistas e equipamentos enviados por outros países.
Um dos principais desafios está nas usinas hidrelétricas atingidas pela inundação. Trabalhadores ficaram presos em túneis e instalações subterrâneas quando a enxurrada atingiu a região.
Mesmo vários dias depois da tragédia, ocorreram resgates considerados extraordinários. Trabalhadores foram encontrados vivos em túneis de projetos hidrelétricos nos dias 4 e 5 de setembro.
Com estradas e pontes destruídas, o Exército do Nepal passou a utilizar drones de carga para transportar alimentos, medicamentos, combustível e outros suprimentos às comunidades que permanecem isoladas.
Os equipamentos conseguem transportar cargas de até aproximadamente 60 quilos e estão sendo utilizados também no reconhecimento das áreas atingidas.
A tecnologia tornou-se especialmente importante porque parte dos helicópteros disponíveis continua dedicada às operações de busca e salvamento.
Além das buscas, as autoridades enfrentam agora outra preocupação: as consequências sanitárias da tragédia.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que milhares de pessoas estão vivendo em abrigos temporários enquanto sistemas de abastecimento de água, saneamento e unidades de saúde foram danificados. Essas condições podem aumentar o risco de doenças transmissíveis nas semanas seguintes à catástrofe.
Equipes do Ministério da Saúde do Nepal, da OMS e do Exército nepalês estão reforçando a vigilância epidemiológica nas regiões atingidas.
Uma avaliação preliminar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou que as enchentes e deslizamentos deixaram aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de escombros somente nas áreas analisadas.
Usinas hidrelétricas também foram afetadas, provocando impactos no sistema de geração de energia do país.
A UNICEF mantém uma operação humanitária para auxiliar crianças e famílias, incluindo a distribuição de kits de higiene e saneamento para comunidades de Rasuwa, Nuwakot e Dhading.
Diante da dimensão dos prejuízos, o Nepal está buscando aproximadamente US$ 5 bilhões em ajuda internacional para reconstrução e recuperação.
O governo pretende levar o caso aos principais organismos financeiros internacionais, defendendo que a tragédia também deve ser analisada sob a perspectiva da justiça climática, já que o país contribui relativamente pouco para as emissões globais, mas está altamente exposto às consequências do aquecimento nas regiões do Himalaia.
Duas semanas depois da catástrofe, o Nepal ainda vive uma corrida contra o tempo. Milhares de famílias continuam sem informações sobre parentes desaparecidos, enquanto equipes vasculham áreas cobertas por lama, destroços e estruturas destruídas.
O balanço oficial permanece provisório. Segundo o próprio governo, os números são atualizados continuamente conforme avançam as buscas, a recuperação de corpos e a identificação das vítimas.
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